O Português na redoma de vidro
23/03/2007 21:37 Autor: João Vieira
da Cunha
A cultura portuguesa é apontada como uma das razões
para a falta de competitividade do nosso país. Se
assim for, a melhor estratégia para melhorar a
nossa economia é enviar cidadãos nacionais para os
países que concorrem directamente com o nosso e
importar profissionais de locais com uma cultura
mais eficaz. Se os valores e hábitos que nos
caracterizam enquanto portugueses, em certas
condições pode dar resposta a qualquer desafio
competitivo, então estamos perante a necessidade de
ajustar processos de gestão e liderança.
O maior estudo sobre as diferenças culturais classifica os países de acordo com quatro factores pontuados de 0 a 120. O primeiro factor é a distância ao poder. Portugal regista um valor de 63 pontos neste indicador. Está a meio da escala, muito próximo da França, mas mesmo assim inclui-se no grupo dos países em que as diferenças entre líderes e colaboradores são melhor aceites. Isto significa que no nosso país as ordens dos líderes são raramente questionadas, que os colaboradores tendem a não tomar a iniciativa de propor soluções para os problemas que detectam, e que os laços informais entre pessoas com níveis diferentes de autoridade são raros.
O segundo factor é o individualismo. A cultura portuguesa têm uma pontuação baixa neste indicador, próximo da de Singapura, atingindo apenas os 27 valores. Isto significa que somos um país colectivista em que as empresas são vistas como uma espécie de grande família que tem por dever ajudar cada um dos seus membros em troca de lealdade. Os trabalhadores oriundos de uma cultura tão pouco individualista como a nossa privilegiam o benefício da sua equipa em detrimento de ganhos individuais. Isto significa que a retórica utilizada para implementar qualquer tipo de mudança tem sempre que se focar nos interesses do grupo e não nos de cada um dos seus membros isoladamente.
O terceiro factor é a masculinidade. Esta é uma designação infeliz para o quanto um país valoriza a assertividade, competitividade e 'status'. Portugal, tal como a Holanda, é uma nação feminina, registando apenas 31 pontos neste indicador. Somos uma cultura que preza a qualidade de vida e os relacionamentos, por oposição ao sucesso material. Nas organizações situadas em países com menor índice de masculinidade, o trabalho em equipa é mais confortável e corre melhor já que os membros valorizam a sua pertença a um mesmo grupo.
O quarto e último factor é a aversão à incerteza. Com 114 pontos, os portugueses são apenas ultrapassados pelos gregos na repulsa pelo risco e pela ambiguidade, situando-se ao mesmo nível do Japão e da Bélgica. Os colaboradores oriundos de culturas deste tipo precisam de um ambiente de trabalho altamente estruturado. Os líderes devem não só ser capazes de prescrever as tarefas a realizar mas também de fornecer um quadro claro da situação da empresa e do seu contexto competitivo.
Isoladamente cada um dos parâmetros da nossa cultura não é por si só negativo, já que há sempre um ou outro país industrializado que está na mesma posição que Portugal. Mas a cultura de um país é mais do que a soma das suas partes. No global, os portugueses sentem-se melhor em situações de crise, em que é necessário uma liderança forte e capaz de criar desafios que exijam trabalho em equipa em condições de elevado 'stress'. Respondem a estes desafios de forma eficaz mas pouco visível, o que limita a aprendizagem organizacional. Para ultrapassar esta limitação, os líderes de organizações de população maioritariamente portuguesa têm que aprender a utilizar os sistemas de informação para detectar as improvisações, os jeitinhos e os desenrascanços em que o nosso país é especialista e sistematizá-los de forma a que possam beneficiar toda a empresa.
Este olhar sistemático sobre a nossa cultura confirma o que o Professor Miguel Cunha afirmou num artigo recente – todas as empresas deviam ter um Português numa redoma de vidro. Do lado de fora deveria ser colocado um martelo com o seguinte aviso, ‘quebre em caso de emergência’.
O maior estudo sobre as diferenças culturais classifica os países de acordo com quatro factores pontuados de 0 a 120. O primeiro factor é a distância ao poder. Portugal regista um valor de 63 pontos neste indicador. Está a meio da escala, muito próximo da França, mas mesmo assim inclui-se no grupo dos países em que as diferenças entre líderes e colaboradores são melhor aceites. Isto significa que no nosso país as ordens dos líderes são raramente questionadas, que os colaboradores tendem a não tomar a iniciativa de propor soluções para os problemas que detectam, e que os laços informais entre pessoas com níveis diferentes de autoridade são raros.
O segundo factor é o individualismo. A cultura portuguesa têm uma pontuação baixa neste indicador, próximo da de Singapura, atingindo apenas os 27 valores. Isto significa que somos um país colectivista em que as empresas são vistas como uma espécie de grande família que tem por dever ajudar cada um dos seus membros em troca de lealdade. Os trabalhadores oriundos de uma cultura tão pouco individualista como a nossa privilegiam o benefício da sua equipa em detrimento de ganhos individuais. Isto significa que a retórica utilizada para implementar qualquer tipo de mudança tem sempre que se focar nos interesses do grupo e não nos de cada um dos seus membros isoladamente.
O terceiro factor é a masculinidade. Esta é uma designação infeliz para o quanto um país valoriza a assertividade, competitividade e 'status'. Portugal, tal como a Holanda, é uma nação feminina, registando apenas 31 pontos neste indicador. Somos uma cultura que preza a qualidade de vida e os relacionamentos, por oposição ao sucesso material. Nas organizações situadas em países com menor índice de masculinidade, o trabalho em equipa é mais confortável e corre melhor já que os membros valorizam a sua pertença a um mesmo grupo.
O quarto e último factor é a aversão à incerteza. Com 114 pontos, os portugueses são apenas ultrapassados pelos gregos na repulsa pelo risco e pela ambiguidade, situando-se ao mesmo nível do Japão e da Bélgica. Os colaboradores oriundos de culturas deste tipo precisam de um ambiente de trabalho altamente estruturado. Os líderes devem não só ser capazes de prescrever as tarefas a realizar mas também de fornecer um quadro claro da situação da empresa e do seu contexto competitivo.
Isoladamente cada um dos parâmetros da nossa cultura não é por si só negativo, já que há sempre um ou outro país industrializado que está na mesma posição que Portugal. Mas a cultura de um país é mais do que a soma das suas partes. No global, os portugueses sentem-se melhor em situações de crise, em que é necessário uma liderança forte e capaz de criar desafios que exijam trabalho em equipa em condições de elevado 'stress'. Respondem a estes desafios de forma eficaz mas pouco visível, o que limita a aprendizagem organizacional. Para ultrapassar esta limitação, os líderes de organizações de população maioritariamente portuguesa têm que aprender a utilizar os sistemas de informação para detectar as improvisações, os jeitinhos e os desenrascanços em que o nosso país é especialista e sistematizá-los de forma a que possam beneficiar toda a empresa.
Este olhar sistemático sobre a nossa cultura confirma o que o Professor Miguel Cunha afirmou num artigo recente – todas as empresas deviam ter um Português numa redoma de vidro. Do lado de fora deveria ser colocado um martelo com o seguinte aviso, ‘quebre em caso de emergência’.
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