discutir a gestão

coluna de opinião no Diário Económico

Contrariar o "bom-senso"

Quem não arrisca, limitando-se a repetir fórmulas testadas, está condenado ao fracasso. Foi este o aviso que Kjell Nordström deixou aos gestores numa conferência recente em Lisboa. Professor na Stockholm School of Economics e co-autor de livros como “Funky Business” e “Karaoke Capitalism”, Nordström é um provocador profissional, um feroz crítico da “normalidade” que é capaz de expressar com clareza uma ideia evidente: se todos tentam repetir os mesmo casos de sucesso, a nossa economia torna-se num ‘karaoke’ desafinado, onde as mesmas ideias são repetidas até à exaustão como se não fosse possível fazer outra coisa.

Lembrei-me da conferência de Nordström este fim de semana, ao ler na revista do Expresso o relato bem humorado do que aconteceu quando quatro gestores de topo se juntaram para brincar ao Monopólio. Depois de mais de três horas de jogo, quem ganhou foi quem fugiu às regras convencionais e negociou de forma mais criativa. Como um dos concorrentes disse no fim, “um pensamento fora do que é típico pode levar a resultados muito positivos”. É verdade, e esta constatação não se aplica apenas ao jogo do Monopólio…

Numa sociedade dominada pelo medo de falhar, ideias novas só surgem quase por milagre. Não há diversidade quando as principais empresas recrutam sistematicamente pessoas com o mesmo perfil, que leram os mesmos livros, que andaram nas mesmas escolas, que compram fatos nas mesmas lojas e que querem as mesmas coisas. A uniformidade é perigosa. O famoso “alinhamento”, que muitos gestores procuram obsessivamente, pode ser o principal obstáculo ao sucesso da sua empresa e à sua capacidade para inovar.

Voltando à conferência de Nordström, a diversidade é precisamente a melhor explicação para o sucesso dos Estados Unidos. Qualquer pessoa se pode tornar cidadão americano. É certo que o processo de aquisição de cidadania não é fácil, mas é possível, ao contrário de quase todos os outros países. Que impacto tem essa possibilidade? Basta olhar para Silicon Valley, onde 40% da força de trabalho nasceu fora dos Estados Unidos, ou para Sergey Brin, um dos fundadores do Google, cujo sucesso americano não foi prejudicado por ter nascido em Moscovo em 1973…

Atrair o talento, encorajar a diversidade, não ter medo de falhar e saber aprender com os erros. Parecem ser estes os mandamentos para o sucesso neste mundo plano e global. Saber, ser, ir e fazer. Mas será isto possível no meio de uma crise global? A pergunta devia ser feita ao contrário: como será possível sobreviver a tempos difíceis sem ousar pensar de forma diferente? Em qualquer crise, há quem chore e quem venda lenços. Quanto mais conservadores a crise nos tornar, mais estaremos a reforçar as nossas próprias dificuldades e a prejudicar as nossas hipóteses de sucesso. Por muito que o senso comum nos empurre na direcção contrária, é nos momentos difíceis que é mais importante arriscar e ser arrojado.

O poder de um boa ideia é enorme, basta olhar para as empresas que estão a atravessar a crise sem dificuldades. Inovar é quebrar barreiras aparentemente intransponíveis e quem consegue fazer isso ganha vantagens competitivas. Efémeras, é certo, mas muito lucrativas. Nordström chamou-lhes “monopólios temporários”. Por exemplo, a Apple com o iPhone não entrou no mercado dos telemóveis, criou um mercado novo onde estava sozinha. Isso permitiu-lhe escolher os operadores que podem vender o iPhone e ditar as regras do modelo de negócio quando nem a Nokia com a sua posição dominante tinha conseguido isso. O IKEA fez a mesma coisa: não entrou no mercado do mobiliário, criou o mercado dos móveis IKEA. A inovação é o talento para pensar de forma diferente e quebrar as regras.

É por tudo isto que é preciso contrariar o “bom senso” dominante na gestão. Para ter sucesso, o caminho mais curto não é recrutar exércitos de clones nem reforçar os métodos de comando e controlo. Também não é preciso renovar todo o quadro de pessoal, basta dar espaço a cada pessoa para expressar as suas capacidades, porque o activo mais importante de qualquer empresa, o talento humano, não aparece no balanço…
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